domingo, 24 de outubro de 2010

A Adolescer Oculto por Nephesh







"Contenta-te à tua tocha, criança!
 e atiças a tua chama!

(Apollo e Dafne - Handel)

[PLAY]


Numa pequena sala com paredes brancas e apenas um sofá encoberto por uma manta xadrez, lá estava eu filmando um documentário sobre uma comunidade composta por crianças e adolescentes de 9 a 15 anos e alguns jovens de até 25: os Spleshs, nome dado por eles mesmos para substituir dois termos os quais todos eles sofriam: viciados em drogas e HIV positivos...sim, todos eles, e achavam ofensivo serem rotulados. “Spleshs” era a única palavra que proferiam.

Naquela grande casa, não se consumia drogas convencionais como maconha, cocaína entre outras, eles mesmos projetaram seu próprio entorpecente e para o uso do mesmo havia até um certo ritual. Como eles apenas proferiam seus devaneios e não conseguiam estabelecer comunicação, não consegui identificar aquela substância: um pó branco semelhante à cal diluído num liquido alterado num tom que oscilava entre laranja e cor de rosa. A mistura era colocada numa garrafa pet cortada ao meio. O suposto ritual consistia em os meninos ajoelharem-se aos pés das meninas que estavam sentadas em cadeiras e sofás com a pet em suas pernas. Enquanto os meninos inalavam aquele liquido eram “acolhidos” pelas meninas que cantavam uma língua desconhecida e abraçavam-nos. Já no uso feminino, elas o faziam em pé e sem a ajuda alheia.

Notei que onde eu estava havia apenas um garoto e duas garotas, então explorei o andar de cima. Dezenas deles ocupavam um grande salão, estavam inalando a droga, dando altas e perturbadoras gargalhadas e alguns giravam em torno de si mesmos: algo similar a um sanatório ou um inferno astral de algum lugar oculto. Eu já começava a partir da razão para a emoção.

As pessoas ali presentes estavam vestidas com roupas coloridas e caras, eram semelhantes aos elencos juvenis de emissoras de TV. Todas ao redor de uma cruz em madeira, onde ali haveria uma encenação de membros mais velhos da comunidade.

Alexey e Marta iniciaram a encenação. Pareciam até irmãos gêmeos, ambos pálidos de olhos claros, um padrão completamente europeu, vestidos de uma forma simples, algo como jeans e camiseta branca cortada nas mangas e na gola. Usavam coroas de louro, imitando as coroas de reis, uma simulação de vitória e conquista? Ou uma representação do mito Dafne? que representaria aqueles membros da comunidade, transmutados no louro de sua irracionalidade, escravizados por seus Apolos interiores?

A encenação não tinha falas, apenas poses para fotografias, já que a linguagem era extinta entre eles por conta de não dialogarem e principalmente não terem o que ou a quem ouvir. Os dois prostravam-se naquela cruz e olhavam para cima, suas expressões remetiam à passagem bíblica de Jesus no monte Getsemani, o qual clamava “Pai, afasta de mim esse cálice”.

Finalizada a encenação, todos espalharam-se pela casa, dirigi-me até a área externa, uma espécie de terraço onde estava tão cheio que não tinha como se movimentar. Dali todos observavam a cidade em silêncio, inclusive seus familiares no cotidiano, mas não conseguiam sentir nada e nem pensar racionalmente. Outros fitavam o além das montanhas com seus olhos de vidro numa expressão altista e melancólica.

De repente, todos começaram a me cercar e dar gargalhadas, tentei não demonstrar medo, percebendo que todos queriam apenas ser filmados, começaram a me sufocar e eu já não conseguia mais acionar os botões da filmadora. Todos queriam me tocar, o cheiro era insuportável, pois eles faziam suas necessidades por ali mesmo, em qualquer lugar. Cada um começou a cantar uma música diferente, músicas que jamais ouvi e ao mesmo tempo em que me machucavam era um tom de confraternização.

Até que algum deles tentou me beijar na boca, aquilo me causou repúdio e pânico, ao mesmo tempo em que eu sentia o sofrimento de cada um deles. Coloquei a filmadora nas mãos de algum deles e fui escapando aos poucos, até que consegui chegar à escada da entrada principal.

O carro de reportagem me aguardava do lado de fora e minha equipe nem fazia ideia do que era aquela comunidade. Viemos baseados em boatos de mais uma onda “hippie” ou uma nova tribo urbana. A condição para a realização do documentário foi de deixar entrar apenas uma mulher.

Todos continuavam cantando, gritando, dando gargalhadas, outros urinavam no chão, porém obcecados pela filmadora. Eis uma oportunidade para eu escapar. Fiquei ali parada na escada aguardando o momento certo de correr. Até que uma menina de aproximadamente nove anos de cabelos longos, vestida apenas com uma camiseta de adulto veio em minha direção. Percebi que todos viriam também, então corri.

Como previsto todos correram também em minha direção. Quando cheguei à cerca de arames farpados, havia uma porta onde cabia metade de mim apenas, consegui estourar a maçaneta e sair. A garotinha me alcançava, minha equipe percebeu e posicionaram o carro para eu entrar. Ela pendurava-se no carro e muitos deles batiam no carro com barras de ferro.

Aquilo era surreal e isso nos impedia de pensar em como escapar. Em todas as esquinas que entrávamos, passávamos aos arredores da casa dos Spleshs, percebemos então que naquele momento a casa ocupava todo o centro da pequena cidade.

A alguns quilometros de lá, um dos pneus estourou por conta dos ataques sofridos, paramos numa mercearia de um senhor de idade para trocarmos o pneu. O senhor se aproximou e disse que ia chamar seu neto para nos auxiliar. Fiquei com Sofia dentro do carro enquanto Silvério trocava o pneu. Quando de repente, chega o rapaz com ferramentas na mão. Ele vestia uma jaqueta de time de futebol americano e tinha os cabelos pretos em grande volume. Ele começou a ajudar Silvério quando me viu. Seu olhar mudou completamente e eu percebi. Não gritei para não desencadear nenhuma reação dele. Desci do carro e pedi para Sofia ficar lá e trancar as portas após Silvério entrar e para que em nenhum momento eles gritassem.

O jovem largou as ferramentas no chão e veio andando em minha direção. Não corri, pois sabia que a presença do avô dele o inibia. A equipe atendeu meu comando. Pessoas passavam por mim enquanto eu era perseguida por ele, eu dava sinais de que precisava de socorro, mas ninguém entendia, achavam que eu estava apenas cumprimentando-os.

Até que um homem estacionou um carro azul. O abordei enquanto ele saia e me joguei para dentro do carro. O garoto que me perseguia procurava alguma arma alternativa em sua volta. Percebendo o perigo, o homem pisou fundo e então eu simplesmente apaguei.  

Não eram pessoas inteiras ali, era a metade oculta de cada um deles que se deslocava para aquele lugar, uma fuga ou uma prisão espiritual ou psicológica? Um pedido de socorro destrutivo. Ao mesmo tempo em que se isolavam da sociedade naquela casa cercada, eram egoístas e queriam todas as atenções de todas as pessoas voltadas para eles, nem que para isso tivessem que cometer algo ilícito, não a morte, pois o que verdadeiramente os acalmava, era alguém racional zelando por eles no mais angélico silêncio. 



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