sábado, 20 de fevereiro de 2010

"Cidade das Alopécias" Parte 1 - por Nephesh


Aqui estou: 
numa cidade desconhecida de subidas íngremes e curvas fechadas. 
Em plê no sacrifício físico da subida com pés envergados lembrando a cruz maçom. 
Paralelamente idosas flutuavam repetindo meu trajeto,
aladas de olhos fechados e passos silenciosos.

Foi quando avistei dois olhos verdes e grandes: 
uma senhora com vestes beges de padecimento como luto astral, 
ela caminhava sem tocar o chão, 
apenas o sorriso servil numa tentativa de aproximação. 
A voz de veludo remetendo a funerais da elite, 
realizando uma conversa sobre o tempo ermo. 
Embora meus pés estivessem doendo, 
devia-lhe pela idade dela a minha melhor educação.
Meus pés continuavam envergados, 
todos ao redor ainda flutuando, 
eu apenas aceitava, 
sabia que tinha de fazê-lo mas não me vinha a mente o porque. 
Minha cabeça acenava em ritmo de concordância, 
pois a dor já não permitia a concentração 
na conversa impessoal proferida pela senhora. 
Eu fingia que a ouvia, evitando a decepção. 
Até que veio um convite para um chá em sua casa. 
Eu necessitava de alívio imediato, logo aceitei.
Lá todas as casas eram pequenas, católicas 
e com portas redondas envernizadas. 
Era padrão a cor bege nas paredes e fachadas. 
Escadas e mais escadas com pequenos degraus para o acesso. 
Ao invés da sala, uma pequena cozinha:
a pia, o fogão e uma mesa retangular com seis acentos. 
Apenas aquela senhora conseguia circular no humilde cômodo, 
por entre lixos e entulhos, 
pilhas de coisas armazenadas que davam para o teto.
Permaneci em pé, 
de frente à uma passagem para as outras dependências da casa, 
eu também não cabia naquele espaço de misteriosa transição.
Ela preparava o chá silenciosamente e falava sem parar.
Falamos sobre a vida, 
conversa básica sobre o cotidiano quando não se quer intimidades.
Ela perguntava e eu respondia, 
a estranheza ao perceber que ali falávamos apenas sobre a minha pessoa. 
Um bombardeio de perguntas, as quais eu respondia com cautela. 
Percebendo, ela ouvia tudo de cabeça baixa, 
forjando uma expressão receptiva enquanto moía um pedaço de canela.
Quando disse que morava sozinha em outra cidade 
ela olhou-me diretamente com olhos de fascinação.
Disse que estava procurando um lugar para morar 
e a conversa cessou quando apareceu 
da pequena passagem para os outros cômodos 
uma garota de cabelos pretos e compridos, 
de aproximadamente uns cinco ou seis anos, 
de rosto sem traços, quase invisíveis.
Trazia lápis de cor e papel...
veio correndo e ficou sobre a mesa desenhando coisas abstratas.
A senhora permaneceu com os olhos fixados na garota 
e sua fisionomia começou a mudar. 
Eu fiquei ali estática apenas observando...
os olhos dela aumentaram e ela simplesmente não piscava, 
até que começou a entortar as mãos e a boca.
Pedi licença dizendo que ia fazer uma ligação para meu marido na rua, 
e então ela direcionou seu olhar demoníaco a mim 
e não respondeu absolutamente nada. 
Sai correndo da casa, 
por curvas e subidas com a sensação 
de que estava sendo perseguida por uma legião, 
mas não conseguir olhar para trás.
Já faltava-me o fôlego até que avistei uma cômbi velha 
com dois homens trabalhando em entregas. 
Corri até eles e pedi ajuda. 
Eles assustaram-se e de início não queriam, 
pois nunca tinham me visto antes. 
Aumentando a opressão abri a porta da cômbi 
e me joguei dentro dela clamando por ajuda dos dois. 
Ambos notando meu desespero e movidos por alguma coisa 
entraram e deram a partida.
Fiquei abaixada o tempo todo 
e um deles colocou uma camisa na cor vinho sobre mim, 
contei rapidamente o que havia acontecido 
enquanto eles dirigiam para os limites da cidade. 
Como a cômbi era velha demais, 
não havia velocidade e parecia que carregava toneladas dentro dela, 
dificultando nas subidas. 
Eles já tinham ouvido falar na velha 
mas achavam que não passava de uma lenda urbana. 
O veículo quase não conseguia sair do lugar 
pois parecia que alguma gravidade o segurava. 
Os dois homens ficaram aflitos também. 
Comecei a orar em voz alta 
e o homem mais novo me acompanhou 
até que o carro desprendeu-se daquele peso.
Ganhando velocidade fomos rumo à saída de cidade, 
mas percebíamos que sempre passávamos pela mesma rua sempre...
que todos os caminhos que tomávamos davam naquela mesma rua: 
a rua onde residia a velha.
O senhor que dirigia começou a entrar em desespero, 
até que eu olhei por debaixo da camisa 
bem quando estávamos em frente à casa dela. 
Ela estava parada com a menina sem rosto ao lado olhando para nós. 
Ela sorria mas não piscava. 
Então a camisa que me cobria verteu-se transparente. 
Desesperados resolvemos manobrar o carro e dirigir em sentido contrário. 
Conseguimos sair daquela rua e chegamos no centro da cidade,
circulando pelas ruas notei que lá moravam apenas senhoras idosas, 
como aquela maligna que me perseguia, 
todas sorridentes com roupas de adolescentes e jovens. 
Lá parecia que o tempo havia parado 
e nenhuma delas era casada ou tinha filhos.
A única criança da cidade era a que não tinha rosto, 
e veio naquele momento justamente para interferir em algo. 
Os únicos homens, estavam me ajudando a fugir.



Continua... 

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